domingo, 7 de outubro de 2007

Nuit Blanche - ou presque.

Passou praticamente uma semana desde a última vez que escrevi aqui - não por não ter nada para contar, mas porque começo a achar que Paris é a cidade mais exigente que existe. Paris e a vida de Erasmus, talvez; principalmente dos Erasmus que querem fazer alguma coisa de útil na Faculdade. Não digo isto para me queixar, até porque adoro sentir-me ocupada e sei que isso me ajuda a passar os dias sem pensar tanto nas saudades de casa e na falta que certas pessoas, lugares, sentimentos e situações me fazem. Mas a verdade é que tenho um bocadinho de medo de estar tão ocupada. Tenho um monte de postais em cima da secretária há mais de uma semana e ainda não os escrevi. Tenho um livro ao lado da cama há quase um mês e ainda não vou a meio. E isso é apenas indicativo de quão afastada de "casa" tenho estado.

Esta semana, fui tendo as primeiras aulas práticas de cada cadeira. Umas correram melhor, outras pior... continuo com algum medo de Urbanismo e ganhei algum receio relativamente a Fundamentais. Mas estou optimista: acho que não é impossível conseguir levar isto para a frente da melhor maneira possível.

No meio das correrias da semana, tive alguns momentos especialmente bons: fui à inauguração de uma exposição no Centro Georges Pompidou (obrigada, Simão!), jantei com a Linda e a Justina, fui a um bar espectacular em Pigalle com dois amigos da residência, visitei Chinatown, participei na Nuit Blanche, andei de Vélib pela primeira vez! Chinatown é um sítio muito especial... o facto de tudo estar coberto de letreiros em chinês e de os empregados das lojas nos atenderem quase como se não estivéssemos lá faz com que seja impossível não nos sentirmos estrangeiros. O que é curioso, porque também os chineses são estrangeiros em França... enfim, não sei explicar. Entrámos em várias lojinhas onde nunca faltava uma vitrina enorme com bonequinhos de porcelana, budas, hello kittys com kimonos (!), todo o género de quinquilharia que eu não posso imaginar na casa de ninguém. Os supermercados eram especialmente interessantes: encontrámos fruta que nunca tínhamos visto na vida, garrafões de molho de soja que pareciam garrafões de gasolina, embalagens decoradas com desenhos hilariantes, dezenas de variedades de noodles.
[embalagens de gengibre e outras coisas que não são nada fáceis de achar a bom preço em Portugal.]

[o tecto de uma das lojinhas.]

[aqui está um pequeno exemplo dos bonequinhos de porcelana - não é inacreditável?!]

[eu e um carro absolutamente cheio de flores - não chegámos a perceber porquê, mas havia 3 assim naquela rua.]

Como conseguem ver por esta última fotografia, ontem também comprei um trolley para ir às compras, como boa parisiense que pretendo ser! :P Claro, as baguettes ajudam a compor o look... :]

Ao fim da tarde, começou a Nuit Blanche - uma noite cheia de eventos (não muito bem programados) que deveria manter os parisienses nas ruas até ao amanhecer. Infelizmente, não tenho fotos de nada, porque fiquei sem bateria na máquina logo no jardim das Tuileries, onde começámos, mas vou deixar aqui uma imagem retirada do site do evento. Nas Tuileries, havia velas por todo o lado, formando um candelabro gigante ao fundo, esferas de fogo, cadeias de luz que ladeavam as alamedas do jardim. Foi um espectáculo lindo de se ver...


Depois, fomos até Notre-Dame, onde devíamos ter assistido a uma polifonia medieval - mas, à boa maneira francesa, o programa não correspondia à realidade, por isso chegámos apenas a tempo de um concerto de órgão. Como ainda era muito cedo e queríamos ver um espectáculo que começava às 3h da manhã, resolvemos ir um bocadinho para Pigalle, para o bar onde já tínhamos estado esta semana (ofereceram-me uma rosa!) e depois regressámos à rua. Tentámos ir à projecção de curtas do Michel Gondry, mas a fila era gigantesca, por isso não insistimos na ideia. Estivemos na Pont des Arts para ver um filme que poderia ter sido muito bom - se o sistema de som nos tivesse permitido ouvir alguma coisa de jeito. No filme, pedia-se a vários parisienses estrangeiros que dissessem uma frase na sua língua materna que os tivesse acompanhado no processo de adaptação a Paris, uma frase que lhes tivesse dado o desejo de continuar - promissor, não acham? E, no entanto, tristemente mal tratado...

Seguimos até Madeleine, onde esperávamos ver o concerto de Stradivarius, uma violinista que acompanha o instrumento com a sua própria voz. Claro que, ao fim de longos minutos sentados no interior da Église Notre Dame de l'Assomption (uma igreja da comunidade polaca) e de duas raparigas se terem lembrado de nos presentear com algumas músicas a duas (más) vozes, percebemos que não ia haver espectáculo.

Daí, fomos para a Église de la Madeleine, onde vi o melhor espectáculo da noite. Chamava-se "Les Souffleurs, commandos poétiques: la confidence des oiseaux de passage." A Igreja estava quase completamente escura, pelo que a luz azul que percorria os longos tubos que povoavam o espaço dominava o ambiente. Homens e mulheres vestidos de negro erguiam-se sobre plataformas, controlando o movimento dos tubos. Pausadamente, seleccionavam uma pessoa do público e deixavam-na conduzir o tubo ao seu ouvido; depois, sussurravam-lhe poemas em várias línguas, sempre acompanhados de tradução para francês. A banda sonora, repleta de sons de pássaros e outros ruídos mais inquietantes, bem como a lentidão com que os tubos iluminados se moviam, ajudavam a contribuir para a criação de um ambiente verdadeiramente único. O "meu poema" parecia ter sido verdadeiramente escolhido para mim. Estava mesmo a precisar de ouvir o que ouvi.

Seguimos para Bercy, onde visitámos a instalação Générik Vapeur, um autocarro completamente alterado, colocado na vertical e acompanhado de som, luz e imagem. O frio já começava a ser difícil de suportar e o cansaço a pesar demais, portanto fomos à procura de uma Vélib, as bicicletas que todos podem alugar para se deslocar dentro da cidade. Ao longo do percurso da Nuit Blanche, deparámo-nos SEMPRE com a ausência absoluta de vélibs - todas estavam a ser usadas. Encontrámos bicicletas ao pé do pavilhão gimnodesportivo de Bercy e iniciámos o caminho para casa, orgulhosos com a nossa descoberta. Não demorámos muito tempo a perceber que, afinal, não tínhamos assim tanta sorte: todos os postos de "estacionamento" estavam completamente cheios no caminho para a CiuP e tínhamos de trocar de bicicleta de meia em meia hora para não termos de pagar. Claro, pagar não era o pior. O pior era termos de estacionar a bicicleta, quando chegássemos a casa, nos lugares que não existiam. Como já era muito tarde (ou cedo, conforme a perspectiva), o RER já estava aberto, por isso acabámos por pôr as nossas vélibs na última carruagem e levá-las até Port-Royal, onde foi bastante mais fácil encontrar lugares vazios. Com tudo isto, já passava das 6h30 da manhã quando fui dormir... mas nem por isso consegui dormir até muito tarde - eram 11h e estava absolutamente desperta. Vamos lá ver se hoje me aguento a visitar museus... (é o primeiro domingo do mês, será que o consigo aproveitar?)

Da noite, resulta um sentimento vago de desilusão: o programa incorrecto, a ausência de cafés abertos ao longo de todo o percurso, o falhanço no tratamento de alguns espectáculos, a escassez de meios de transporte... claro que consegui compensar isso com outras coisas boas: a companhia, a viagem de vélib, aquele momento de poesia na igreja de Madeleine, a visão do céu límpido sobre Paris, coroado por um minguante luminoso, o folhado de limão e as gomas :]

[Sim, sim, ainda estou apaixonada por Paris, apesar de todos os percalços!]

5 comentários:

Anónimo disse...

Essa tal de Nuit Blanche parece mil vezes mais interessante que as minhas noites ZERO. ahahahah. A minha noite de ontem acabou às 2 da manhã e só percorri dois bares.
E a descrição que fazes dessa noite parisiense, lembra-me a arte ao máximo...

E apesar de tudo, estás maravilhosa nas fotos... ;)

Bisous

****

mapha lá fora disse...

eu acho que é bom não estares sempre aqui a escrever, apesar de ter saudades de te ler =P é sinal que estás realmente ocupada, entretida e feliz =)

adoro as tuas descrições de Paris e de tudo o que fazes aí... há de chegar o dia em que sou eu a relatar algumas coisas mais divertidas que as miúdas me fazerem a cabeça em água ou os cães comeram/destruiram mais umas coisas! lol

beijinho*

Ska disse...

Pera lá... tu meteste mesmo uma (duas, ok) velib no RER?? Gostava de ter-vos visto a passarem na entrada...

Muito bem ;)

nuno disse...

:)os carros das flores!

Marta da Cunha e Castro disse...

Adoro o carrinho das compras!! É tão frances!! Pareces uma local =) e parece que te tás a adaptar completamente, o que me deixa muito feliz!!