domingo, 4 de novembro de 2007

Fim-de-semana (em) grande.

Apesar de a faculdade não nos ter dado a sexta-feira livre, eu resolvi oferecer uma ponte a mim mesma! Aceitei o convite (como sempre, generoso e simpático) da minha "segunda família" e fui passar uns dias à costa da normandia e da bretanha. Resultado: regressei a Paris sorridente, ainda boquiaberta com as coisas que vi e embalada no sentimento de ter estado quase em casa.

Deixei Paris na quarta-feira à noite e, desta vez, consegui um lugar sentada no comboio para Rouen! yey! :) Na quinta-feira de manhã, partimos em direcção ao Norte. A nossa primeira paragem foi em Arromanches, uma das famosas praias do desembarque. Aqui, pudemos ver ainda os restos de um porto criado pelos Aliados com o auxílio de gigantescos contentores. Toda a área à volta da praia estava cheia de alusões à segunda guerra mundial: não apenas pela presença de enormes pontes móveis utilizadas para transportar os tanques entre os barcos e a costa, mas também pela profusão de lojas de "souvenirs" militares.


[um dos contentores - que, visto assim, até parece um barquinho... mas não é!]

De Arromanches, seguimos para o cemitério americano da normandia. Ali tive o meu primeiro choque histórico... de repente, estar diante de 9.387 campas de soldados mortos na segunda guerra mundial, apertou-me o coração. Quase 10.000 pessoas... não seria possível conter o arrepio. Ainda por cima, quase 10.000 pessoas que morreram violentamente, longe de tudo o que lhes era familiar. Eeek.


O que também impressionava aqui era a dimensão estética do cemitério. Para além da relva minuciosamente aparada (com uma distância regular de um ou dois centímetros entre o final da relva e o início do caminho!), todas as cruzes estavam impecavelmente limpas, sem um único vestígio de musgo. Além disso, a geometria e a ordem afastaram este local da minha ideia mental de cemitério...


[vista do cemitério: a praia onde morreu uma grande parte dos soldados ali enterrados (*arrepio*), cinzenta e sob um céu carregado. perfeito para criar ambiente... ergh.]

Dali seguimos para a Pointe du Hoc, onde pudemos ver vários bunkers entre o completamente destruído e o praticamente intacto. Mais uma vez, foi uma visita algo chocante, principalmente porque o solo estava completamente alterado pela explosão das (muitas) bombas americanas...

Ainda tivemos oportunidade de assistir ao cair da noite na costa; as nuvens densas aumentaram o efeito dramático que persistiu ao longo de toda a nossa viagem. Tenho a dizer (como já disse a algumas pessoas) que esta costa tem as paisagens mais românticas, em sentido literário, que eu já vi na minha vida. Belo, mas oh!, tão trágico. ;)


Nessa noite, ficámos em Granville, uma cidade situada já na baía do Mont-St-Michel. Na sexta-feira, almoçámos em Cancale, uma praia conhecida pelas suas ostras frescas e saborosas (até pareço um anúncio de televisão, ihih) que os turistas comem às dúzias à beira-mar, atirando depois as conchas vazias às ondas. Sabiam que os romanos já eram maluquinhos pelas ostras de Cancale?! :]


[aqui vê-se bastante bem o dramatismo de que falava há pouco... olhem só para o peso dessas cores, dessas nuvens, das falésias!]

[e o dramatismo continua - é dramático ver que ainda tiro destas fotos "i'm the queen of the world" aos 21 anos! :P]

Ao fim do dia, chegámos a St-Malo, a cidade onde eu gostava de ter uma casinha de férias! :) Esta cidade fortificada deve a sua riqueza aos corsários que atacavam os navios estrangeiros (com a bênção de Sua Majestade, bien sûr!) e a sua fama a várias outras coisas: começando pela sua ligação ao escritor pré-romântico François-René de Chateaubriand, passando pela reconstrução e restauração magníficas operadas após o bombardeamento dos Aliados de 1944 e, claro!, culminando na magia de uma cidade robusta que resiste à força espantosa de marés violentas sem perder a beleza...

St-Malo tem ainda a particularidade de estar repleto de crêperies. Má notícia para a linha... mas excelente notícia para a gula, já que os crepes bretões são conhecidos em todo o mundo: salgados ou doces, com farinha escura ou branca, não há como não gostar. A juntar a isso, há as galettes de manteiga, absolutamente incontornáveis, bem como os típicos kouing-aman (que eu não provei, mas sei que são uma bomba calórica, assim com 200 ou 300g de manteiga para 400g de farinha - ou não fossem eles bretões!)



[atenção: estes enormes troncos de madeira estão ali para tentar quebrar a força das ondas antes que elas atinjam as muralhas. MAS uma grande parte dos troncos colocados ao longo da praia já estava completamente destruída...]

Nas ruas de St-Malo, é bom apreciar a arquitectura, bem como os detalhes: por cima das lojas, os sinais suspensos em ferro forjado; o chão irregular e a predominância do granito; o cheiro do mar que alcança o interior da cidade; o barulho das ondas (que só pude ouvir de manhã, bem cedinho, porque durante o resto do dia os turistas abafam tudo...)

[pôr-do-sol visto do interior da muralha.]

[esta era a torre de onde os corsários atiravam os mortos... creepy.]

Portanto, dormimos em St-Malo de sexta para sábado e ainda pudemos passear por lá de manhã. Depois, seguimos em direcção ao Cap Fréhel, onde corvos e gaivotas animavam a paisagem desolada, e continuámos a nossa viagem até ao Mont-St-Michel.


Tudo o que eu tinha lido e ouvido sobre o Mont-St-Michel me fazia antever um local imponente e de uma beleza muito particular. Claro que, uma vez lá, concluí que, como em tantas outras coisas, só estando lá se pode entender a sua verdadeira imponência.

Curiosidade: os bretões e os normandos sempre se bateram pelo Mont-St-Michel. O rio que separa as duas regiões é o Couesnon e a natureza acabou por se decidir a favor da Normandia, já que o seu leito se transferiu para oeste, "oferecendo" o Mont-St-Michel aos normandos. Como diz o ditado bretão:

Le Couesnon a fait folie cy est le Mont en Normandie"
("Le Couesnon dans sa folie mît le Mont en Normandie")

O que começou, no século VIII, por ser um pequeno oratório, acabou por se transformar num importante mosteiro beneditino, nos séculos XII e XIII. O mosteiro servia de centro de estudos para os beneditinos e de local de peregrinação para os miquelots, que vinham prestar culto a S. Miguel. Após a Revolução Francesa, o Mont-St-Michel ainda serviu de prisão e só um século depois é que foi reconhecido como monumento nacional...


Mais uma vez, as ruas valem por si: sinuosas, estreitas, irregulares, cobertas de referências medievais. O que empobrece a imagem é a extrema afluência de turistas que tornam quase impossível apreciar o que nos rodeia. Sim, eu sei que também eu sou turista, mas não consigo evitar este sentimento... é recorrente e inconsciente, não consigo deixar de odiar turistas, apesar de ser uma. [isso significa que me odeio a mim mesma quando passeio? :P]



Para terminar, nada melhor do que um pequeno vislumbre das areias brilhantes que rodeiam o Mont-St-Michel em alturas de maré baixa. Ah, as marés são tão estupidamente violentas que atingem velocidades de 10 km/h! Dizem os franceses que a maré sobe "à la vitesse d'un cheval au galop" e é extremamente perigoso passear pelos areais, não apenas por causa disso, mas também porque há areias movediças naquela zona. Quem quiser passear à volta do Mont-St-Michel tem de pagar a um guia, se não quiser ser literalmente engolido pela terra... :P



O regresso a Rouen foi calmo, apesar de demorado, mas é sempre bom ter a sensação de regressar a "casa". Hoje de manhã, ainda fomos correr para a floresta que fica lá ao lado... independentemente do (in)sucesso da boa iniciativa desportiva, ficam na memória imagens magníficas da floresta normanda no outono, dos tons quentes das folhas e da vegetação imponente. Valeu a pena ver e valerá a pena regressar (com máquina fotográfica, de preferência!)


[e agora, depois deste fim-de-semana de luxo, quem é que tem vontade de estudar?!]

3 comentários:

Anónimo disse...

Que fotos brutais... Se eu vivesse num sítio desses, era um senhor... aahahah.

Imagino logo os fantasmas e aparições naquele local. Soldados fantasmagóricos e esfarrapados a surgirem no cenário nublado...
ahahaha
Terror ao máximo.

Gostei mesmo do que vi.
Obrigado por partilhares isto com o pessoal.

Muitos beijinhos.

Ed J.

Mafalda disse...

q inveja Rita!! a sério... adorava ter visto isso tudo! e ainda por cima começas logo o post com fotos do desembarque... quem é que me manda ser mórbida e gostar da 2ª guerra mundial?! lol!
mas olha que essas ruazinhas também são tão apetitosas... mesmo com turistas! olha, aqui nem os turistas vêm porque não há nada para ver!
bem, mas estou no estado do grand canyon, quero ver se lá vou e ver se é como dizem ^^
hoje vi um dos pores-do-sol (?) mais bonitos de sempre! mesmo não sendo no mar... o céu com pinceladas vermelhas enormes por todo o lado e as montanhas a esconder parte da luz... pena não ter levado máquina e estar a conduzir! porque era daqueles de parar o carro, sair e ficar a olhar até estar escuro!
beijinhos! espero q recebas o meu postal entretanto!

Era uma vez ... disse...

ohhhh rita!!!k imagens lindas!!!como t acabei d dizer...lol...sitios magnificos. beijocas xeias d inveja d ñ tar ai hihi