sábado, 10 de novembro de 2007

Friiiiiiiiiiiiiiiiiiio (e outras coisas melhores).

Ontem foi, provavelmente, o dia mais frio que tive desde que cheguei a França. Ontem também foi a primeira vez que fui à piscina da Cité Universitaire e à biblioteca da Maison International, portanto... foi um dia cheio de coisas novas. Bem, uma coisa de cada vez!

Está frio. E ainda é apenas o princípio... esta era uma das coisas que me assustava um bocadinho quando pensava em vir para aqui em Erasmus. Claro, friorenta como eu sou... O que me irrita é pensar que ontem já tinha duas camisolas, um casaco, um cachecol, uma boina e luvas - e que, ainda assim, tinha frio! O que é que é suposto eu vestir mais?! Acho que vou ter de descobrir isso em breve. Afinal, prevêem 5 graus de máxima e -3 de mínima para sábado que vem... :| Eeek!

Mas ok, o ser humano é adaptável, tudo há-de correr bem. Passemos das lamúrias a coisas mais bonitas: a biblioteca da Maison International. Imaginem uma sala com uma arquitectura fabulosa, decorada com fotografias lindíssimas e com imensos livros muito bem encadernados, contando-se entre eles dezenas de enciclopédias jurídicas e dicionários de todas as línguas! :] Yummy, não é? Fui estudar para lá ontem e acho que hoje vou voltar a passar lá o dia. Assim, até sabe melhor!

À hora de almoço, resolvi estrear-me na natação livre. A piscina é no nível -2 da Maison International. Instalações velhas, escuras, balneários mistos, chuveiros separados por paredes que me chegam pelo ombro, pistas tão estreitas que as pessoas batem com os braços e pernas umas nas outras se não se encolherem. Sem comentários...

Depois das aulas da tarde, fui com o Simão e a Patrícia jantar a Les Halles e seguimos para a Flèche d'Or (para variar), onde assistimos a três concertos. Ou antes, a dois e meio, que o último estava a ser um bocado... impossível de aguentar. :P

O primeiro grupo a actuar foi The Delano Orchestra, uma banda francesa, e, na minha opinião, a melhor da noite (apesar de ter funcionado como banda de abertura para as duas estrangeiras...). Além das guitarras, baixo, bateria e teclas, eles traziam uma trompete - elemento decisivo, porque tornou todo o som deles muito mais rico e interessante. A clara influência de Sigur Rós, Radiohead e Mew deixou-me bastante satisfeita: percebia-se que eles gostavam daquilo, mas sem copiar. Enfim, banda a não perder de vista, seguramente!

A seguir, entraram em palco os britânicos Mr. Hudson & The Library: um excelente concerto, mas um tipo de música que não me diz absolutamente nada. Destaque para a energia e qualidade da voz de Joy Joseph, bem como para a capacidade que tinha o vocalista principal, Mr. Hudson, para introduzir na letra elementos do ambiente que nos rodeava. Uma prestação excelente, mas... que me custou um bocadinho a aguentar até ao fim.

Depois de Mr. Hudson, foi a vez de Radio LXMBRG, uma banda sueca que me desiludiu tremendamente: música fraca, presença em palco absolutamente irritante (o vocalista era abichanado no pior sentido possível da coisa) e uma atitude presunçosa muito pouco digna de cabeças de cartaz (ainda para mais, com qualidade inferior à banda de abertura...). Claro, fomos embora a meio do concerto, aquilo era mau demais.

Depois da Flèche, ainda tivemos tempo para um croissant e para apanhar o metro para casa - afinal até é bom que os franceses tenham esta mania de começar os concertos às 20h30... :] quando precisamos de acordar cedo para estudar no dia a seguir, sabe bem. Claro que, chegados a casa sem sono nenhum, ainda fomos beber um chazinho na cozinha...

E pronto, hoje será um dia inteiramente dedicado ao estudo. Talvez à noite vá a algum lado, mas... tenho de trabalhar muito antes de lá chegar. C'est la vie!

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Stockholm Syndrome.

Vou ver se me raptam no dia dos namorados. :]

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Tempo.

Sei que ando muito pouco dedicada ao blog, mas parece que agora o tempo anda a pregar-me partidas: foge sem avisar quando preciso dele e arrasta-se quando me apetece mesmo que o Natal chegue muito rapidamente. (Ah, roubei um contador à Mafas para saber quanto falta para chegar aí...) Seja como for, aqui estou para fazer um pequeno resumo do que tenho feito!

Na segunda-feira fui à Flèche d'Or com a Linda. O espaço é genial, como já vos tinha dito, as pessoas são muito interessantes e os concertos foram bons (até porque gratuitos, eheh). A primeira cantora, Marie-Flore, era uma miúda novinha com um ar muito frágil e uma voz tímida, que acabou por me impressionar pela positiva. Depois, foi a vez de Melanie Pain, que já trabalhou com os Nouvelle Vague. Claro, foi um concerto bastante mais profissional, mais seguro, mais estudado. Confesso que a voz da menina me irrita um bocado ao fim de 4 ou 5 canções, mas... até aí gostei. A terceira banda a entrar foi F.M., mas não sei dizer se gostei do concerto, por um motivo muito simples: o espaço não favorecia o tipo de música. Imaginei-os logo no Santiago Alquimista... :] Para encerrar a noite, Phoebe Killdeer and the Short Straws enlouqueceram o público, numa actuação muito visual, muito emocional e muito... ermm... cheia de droga, i guess. Não deixa de ser curioso, porque quando ouvi as músicas deles no MySpace fiquei com uma noção totalmente diferente. Na verdade, são melhores ao vivo do que em estúdio!

Ontem consegui finalmente inscrever-me no desporto universitário! Vou começar a fazer natação, body balance e tango! :] Depois tive de ir a um centro comercial, porque queria mudar de telemóvel para ter um tarifário mais barato e precisava de umas calças. Foi terrível: detesto fazer compras, ainda mais sozinha, aquilo estava cheio de gente (uma boa parte dela, com um ar assustador), as calças eram todas curtas para mim e já havia enfeites de Natal. Não gosto de ver enfeites de Natal tão cedo (nunca gostei, como sabem os que me conhecem bem e estão fartos de me ouvir dizer "mas eu ainda nem sequer fiz anos!") e não gosto de enfeites de Natal pirosos. I mean... que raio de ideia é a de pendurar no tecto vários letreiros que dizem Natal em várias línguas e depois um que diz "Love"?! "Love" é "Natal" nalguma língua que eu não conheço?! Parece daqueles exercícios para as crianças assinalarem o elemento que não faz parte do conjunto. Tsc tsc tsc...

Ao fim da tarde, fui com a Linda para casa da Justina para um lanche ajantarado, com direito a muito chocolate e a um copinho de sidra normanda, para enganar as saudades que já todas sentimos. Foi um serão muito calmo e "familiar" - e soube-me tão bem assim. Já tinha saudades de estar simplesmente sentada no chão com duas amigas a falar MESMO das nossas preocupações e alegrias...

E pronto, agora tenho de ir porque tenho mooooontes de coisas para fazer! O tempo prega-me partidas...

[e, falando de tempo, vou mudar-lhe um pouco o sentido só para dizer que está tudo cinzento à minha volta. paris decidiu voltar à sua azáfama sombria...]

domingo, 4 de novembro de 2007

Fim-de-semana (em) grande.

Apesar de a faculdade não nos ter dado a sexta-feira livre, eu resolvi oferecer uma ponte a mim mesma! Aceitei o convite (como sempre, generoso e simpático) da minha "segunda família" e fui passar uns dias à costa da normandia e da bretanha. Resultado: regressei a Paris sorridente, ainda boquiaberta com as coisas que vi e embalada no sentimento de ter estado quase em casa.

Deixei Paris na quarta-feira à noite e, desta vez, consegui um lugar sentada no comboio para Rouen! yey! :) Na quinta-feira de manhã, partimos em direcção ao Norte. A nossa primeira paragem foi em Arromanches, uma das famosas praias do desembarque. Aqui, pudemos ver ainda os restos de um porto criado pelos Aliados com o auxílio de gigantescos contentores. Toda a área à volta da praia estava cheia de alusões à segunda guerra mundial: não apenas pela presença de enormes pontes móveis utilizadas para transportar os tanques entre os barcos e a costa, mas também pela profusão de lojas de "souvenirs" militares.


[um dos contentores - que, visto assim, até parece um barquinho... mas não é!]

De Arromanches, seguimos para o cemitério americano da normandia. Ali tive o meu primeiro choque histórico... de repente, estar diante de 9.387 campas de soldados mortos na segunda guerra mundial, apertou-me o coração. Quase 10.000 pessoas... não seria possível conter o arrepio. Ainda por cima, quase 10.000 pessoas que morreram violentamente, longe de tudo o que lhes era familiar. Eeek.


O que também impressionava aqui era a dimensão estética do cemitério. Para além da relva minuciosamente aparada (com uma distância regular de um ou dois centímetros entre o final da relva e o início do caminho!), todas as cruzes estavam impecavelmente limpas, sem um único vestígio de musgo. Além disso, a geometria e a ordem afastaram este local da minha ideia mental de cemitério...


[vista do cemitério: a praia onde morreu uma grande parte dos soldados ali enterrados (*arrepio*), cinzenta e sob um céu carregado. perfeito para criar ambiente... ergh.]

Dali seguimos para a Pointe du Hoc, onde pudemos ver vários bunkers entre o completamente destruído e o praticamente intacto. Mais uma vez, foi uma visita algo chocante, principalmente porque o solo estava completamente alterado pela explosão das (muitas) bombas americanas...

Ainda tivemos oportunidade de assistir ao cair da noite na costa; as nuvens densas aumentaram o efeito dramático que persistiu ao longo de toda a nossa viagem. Tenho a dizer (como já disse a algumas pessoas) que esta costa tem as paisagens mais românticas, em sentido literário, que eu já vi na minha vida. Belo, mas oh!, tão trágico. ;)


Nessa noite, ficámos em Granville, uma cidade situada já na baía do Mont-St-Michel. Na sexta-feira, almoçámos em Cancale, uma praia conhecida pelas suas ostras frescas e saborosas (até pareço um anúncio de televisão, ihih) que os turistas comem às dúzias à beira-mar, atirando depois as conchas vazias às ondas. Sabiam que os romanos já eram maluquinhos pelas ostras de Cancale?! :]


[aqui vê-se bastante bem o dramatismo de que falava há pouco... olhem só para o peso dessas cores, dessas nuvens, das falésias!]

[e o dramatismo continua - é dramático ver que ainda tiro destas fotos "i'm the queen of the world" aos 21 anos! :P]

Ao fim do dia, chegámos a St-Malo, a cidade onde eu gostava de ter uma casinha de férias! :) Esta cidade fortificada deve a sua riqueza aos corsários que atacavam os navios estrangeiros (com a bênção de Sua Majestade, bien sûr!) e a sua fama a várias outras coisas: começando pela sua ligação ao escritor pré-romântico François-René de Chateaubriand, passando pela reconstrução e restauração magníficas operadas após o bombardeamento dos Aliados de 1944 e, claro!, culminando na magia de uma cidade robusta que resiste à força espantosa de marés violentas sem perder a beleza...

St-Malo tem ainda a particularidade de estar repleto de crêperies. Má notícia para a linha... mas excelente notícia para a gula, já que os crepes bretões são conhecidos em todo o mundo: salgados ou doces, com farinha escura ou branca, não há como não gostar. A juntar a isso, há as galettes de manteiga, absolutamente incontornáveis, bem como os típicos kouing-aman (que eu não provei, mas sei que são uma bomba calórica, assim com 200 ou 300g de manteiga para 400g de farinha - ou não fossem eles bretões!)



[atenção: estes enormes troncos de madeira estão ali para tentar quebrar a força das ondas antes que elas atinjam as muralhas. MAS uma grande parte dos troncos colocados ao longo da praia já estava completamente destruída...]

Nas ruas de St-Malo, é bom apreciar a arquitectura, bem como os detalhes: por cima das lojas, os sinais suspensos em ferro forjado; o chão irregular e a predominância do granito; o cheiro do mar que alcança o interior da cidade; o barulho das ondas (que só pude ouvir de manhã, bem cedinho, porque durante o resto do dia os turistas abafam tudo...)

[pôr-do-sol visto do interior da muralha.]

[esta era a torre de onde os corsários atiravam os mortos... creepy.]

Portanto, dormimos em St-Malo de sexta para sábado e ainda pudemos passear por lá de manhã. Depois, seguimos em direcção ao Cap Fréhel, onde corvos e gaivotas animavam a paisagem desolada, e continuámos a nossa viagem até ao Mont-St-Michel.


Tudo o que eu tinha lido e ouvido sobre o Mont-St-Michel me fazia antever um local imponente e de uma beleza muito particular. Claro que, uma vez lá, concluí que, como em tantas outras coisas, só estando lá se pode entender a sua verdadeira imponência.

Curiosidade: os bretões e os normandos sempre se bateram pelo Mont-St-Michel. O rio que separa as duas regiões é o Couesnon e a natureza acabou por se decidir a favor da Normandia, já que o seu leito se transferiu para oeste, "oferecendo" o Mont-St-Michel aos normandos. Como diz o ditado bretão:

Le Couesnon a fait folie cy est le Mont en Normandie"
("Le Couesnon dans sa folie mît le Mont en Normandie")

O que começou, no século VIII, por ser um pequeno oratório, acabou por se transformar num importante mosteiro beneditino, nos séculos XII e XIII. O mosteiro servia de centro de estudos para os beneditinos e de local de peregrinação para os miquelots, que vinham prestar culto a S. Miguel. Após a Revolução Francesa, o Mont-St-Michel ainda serviu de prisão e só um século depois é que foi reconhecido como monumento nacional...


Mais uma vez, as ruas valem por si: sinuosas, estreitas, irregulares, cobertas de referências medievais. O que empobrece a imagem é a extrema afluência de turistas que tornam quase impossível apreciar o que nos rodeia. Sim, eu sei que também eu sou turista, mas não consigo evitar este sentimento... é recorrente e inconsciente, não consigo deixar de odiar turistas, apesar de ser uma. [isso significa que me odeio a mim mesma quando passeio? :P]



Para terminar, nada melhor do que um pequeno vislumbre das areias brilhantes que rodeiam o Mont-St-Michel em alturas de maré baixa. Ah, as marés são tão estupidamente violentas que atingem velocidades de 10 km/h! Dizem os franceses que a maré sobe "à la vitesse d'un cheval au galop" e é extremamente perigoso passear pelos areais, não apenas por causa disso, mas também porque há areias movediças naquela zona. Quem quiser passear à volta do Mont-St-Michel tem de pagar a um guia, se não quiser ser literalmente engolido pela terra... :P



O regresso a Rouen foi calmo, apesar de demorado, mas é sempre bom ter a sensação de regressar a "casa". Hoje de manhã, ainda fomos correr para a floresta que fica lá ao lado... independentemente do (in)sucesso da boa iniciativa desportiva, ficam na memória imagens magníficas da floresta normanda no outono, dos tons quentes das folhas e da vegetação imponente. Valeu a pena ver e valerá a pena regressar (com máquina fotográfica, de preferência!)


[e agora, depois deste fim-de-semana de luxo, quem é que tem vontade de estudar?!]

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Oh happy day.

Na sexta-feira à noite, estive pela primeira vez numa festa de aniversário francesa. Foi óptimo: conheci pessoas espectaculares, tive direito a bolo de chocolate feito pela aniversariante (já internacionalmente conhecido!) e ofereci um ananás porque não encontrei flores. Hmm. Pois. É nisto que dá quando eu e a Linda descobrimos que afinal a festa é nesse dia, e não no sábado, que as lojas já estão fechadas e que é preciso recorrer à imaginação, rapidamente. Correu bem... a Nathalie riu-se imenso com a nossa solução! E pronto. Estreei-me nas festas caseiras parisienses... e gostei.

O jantar semanal com o meu grupo preferido de erasmus começa a ser um uso (pois, ainda não há convicção de obrigatoriedade, ihih). Ontem recebi chez moi a Linda, a Justina, o Pascal, a Ona e o Roland. Só para terem uma pequena ideia do que se passou, vou descrever a ementa: começámos por uma sopa finlandesa chamada "sopa dos apaixonados" (isto porque era assim para o cor-de-rosa, levava beterraba, mel e roquefort e mais uma data de coisas que eu nunca poria numa sopa), esparguete à bolonhesa cozinhado pelas lituanas (picante!) acompanhado por duas saladas (uma de tomate com chèvre e outra de milho, kiwi e maçã) seguido de arroz doce (tão bem sucedido que duas tigelas foram para casa de duas meninas embrulhadas em papel de alumínio... como eu adoro o efeito da doçaria portuguesa nos estrangeiros!).

Depois do jantar, ainda bebemos um copinho de vinho do Porto e petiscámos línguas de gato: a partida perfeita para a nossa estreia na Flèche d'Or, que de facto merece a fama que tem! Claro que uma noite tão bem passada só podia ser o prenúncio de um domingo ainda melhor... :] De manhã, acompanhei a Linda a uma lavandaria (daquelas que aparecem nos filmes, com máquinas enormes e pessoas esquisitas a dobrar camisolas), onde conheci dois americanos que estavam a percorrer a Europa de improviso, apenas com uma mochila e muita inspiração. Foi bastante interessante falar com eles... ao lado deste tipo de férias, erasmus não parece minimamente aventureiro! À tarde, ficámos num café do 5ème arrondissement, daqueles que cheiram mesmo a Paris (não Paris turístico, mas Paris da minha imaginação), e comemos uma tarte tatin deliciosa. Senti mesmo que estava com uma boa amiga, a ter uma conversa normal (e que falta me fazia...) num sítio aconchegado e genuinamente parisiense. Não há como descrever a sensação. C'est trop bon.

Quando pensava que o meu domingo não podia melhorar mais, convidaram-me para ir à Maison Européenne de la Photographie (cuja existência eu ignorava totalmente) e, obviamente, não pude deixar de ir. Fiquei surpreendida com a qualidade do espaço e das fotografias, bem como com a quantidade de coisas boas que se podem retirar de lá: as exposições são apenas uma parte; há uma biblioteca, uma videoteca, um café muito agradável e não muito caro (cujas mesas são fotografias olho-de-peixe!), conferências, lançamentos de livros, etc. Definitivamente, vou fazer o passe anual... :]

Para terminar o dia em beleza, um gesto muito querido da Ana, da Rita e da Marie: estavam alegremente a fazer crepes e resolveram oferecer-me um! Com Nutella, bien sûr!, que é o melhor que há! :D O momento ficou registado:


E pronto, vou dormir com esta sensação de alegria enorme. É tão bom quando começamos a viver esta cidade com mais calma e sabedoria... (talvez não nossa, mas das pessoas boas que vamos encontrando pelo caminho.)



Curiosidades do dia:
- sabem aquelas compotazinhas e manteigas que costumam servir nos restaurantes com o pão? aqui há dessas embalagens pequeninas de nutella! que vício... :]
- supostamente, o queijo roquefort foi descoberto por um homem que prestava mais atenção às mulheres que ao seu trabalho e que, por causa desse pequeno desvio de interesses, se esqueceu de queijo de ovelha e pão numa gruta durante alguns meses. et voilà, aquilo estragou-se e ele resolveu provar à mesma. que história tão má para um queijo que não precisa de mais do que o seu mero cheiro para me fazer torcer o nariz. (e, no entanto, depois de me ensinarem a comer aquilo com manteiga - que bomba calórica! - até já o acho tolerável...)
- a maior tarte tatin do mundo foi feita por um pasteleiro de Lamotte-Beuvron (a sul do Loire, na região centro de França) e tinha 2,50m de diâmetro! sim, é uma informação absolutamente inútil. mas, quand même!, 2,50m de diâmetro para uma tarte tatin é muito...

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Melancolia.


e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

Al Berto


[tenho saudades dos meus livros de poesia.]

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Drugstore Cowboy.

Ontem fui pela primeira vez à Cinemateca de Paris, ver o "Drugstore Cowboy" de Gus Van Sant. A sensação de estar naquela cinemateca é indescritível... e, ainda por cima, apesar de eu não perceber rigorosamente nada de cinema, tudo o que vi do Gus Van Sant até hoje me pareceu muito bom. :] A sala demasiado cheia e o estômago vazio não foram suficientes para me desfazer o sorriso: foi mesmo bom. É incrível... desde que vim para Paris, tenho sempre esta sensação de que as coisas boas superam largamente as coisas más. Espero continuar assim!

Então, agora, algumas coisas sobre o filme. "Drugstore Cowboy" (1989) pretende retratar a vida de um grupo de toxicodependente liderado por Bob (Matt Dillon) e a sua mulher (Kelly Lynch), que sustenta o seu vício através de numerosos assaltos a farmácias e hospitais. É curiosa a forma como a superstição acaba por ter um papel fulcral nesta história: o que começa por ser uma pequena piada, acaba por tomar conta do desenrolar do enredo, impondo-se no final como a suprema ironia. Bob e Dianne são uma versão altamente drogada de Bonnie & Clyde, mas acabam por se separar quando, na sequência de uma tragédia ocorrida no seio da "família", Bob decide largar as drogas e retomar uma vida normal. Achei particularmente interessante o papel de Tom, o padre (William S. Burroughs), um viciado muito fora do vulgar. Ainda mais interessante se torna se tivermos em conta que o actor, escritor e pintor era, na realidade, viciado em ópio... Mas mais não vos digo, senão não tem piada ver o filme!
Recomendo... não só o filme, mas também a cinemateca :]

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Do feijão verde ao arroz basmati.

Lição n.º 1 sobre os artistas em Paris: se se dizem artistas e organizam uma "scène ouverte" por semana, com direito a jantar comunitário, não são artistas. São pessoas com mau aspecto, que lembram os punks dos cães que pedem dinheiro na Morais Soares, que fumam ganzas incrivelmente mal cheirosas e que pasmam diante de um tipo a brincar com um diablo.

O que fazer, então? Voltar costas ao feijão verde pouco apetitoso e ir embora, rezando para não ter apanhado pulgas no sofá da garagem que serve de sala de convívio. (Estou a ser preconceituosa? Talvez. Mas vejam aquilo e depois falem comigo...)

Para compensar, jantei muito bem, num restaurantezinho muito agradável e com uma excelente companhia. Claro, o melhor disso tudo foi ser servida por um homem que podia muito bem participar neste clip:



De camisa verde-menta, a servir bebidas da mesma cor, a falar com aquele francês altamente (não) charmoso... e eu com uma vontade incontrolável de tossir e rir e fazer asneiras. O arroz basmati é o príncipe dos arrozes, mas aquele empregado era o príncipe dos homens pequeninos e ridículos que cabem numa arca congeladora!

[Obrigada por me teres acompanhado nas parvoíces.]

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Muitas coisas boas.

Nos últimos dias, tenho tido tantas coisas boas que nem consigo pensar muito no facto de ter adoecido: desde os mais pequenos pormenores práticos que melhoraram na minha vida (como o edredon, a pixie e a osga, os cachecóis e a boina, uma chaleira eléctrica e uma varinha mágica) até aos grandes acontecimentos (a visita da Catarina e da minha irmã mais velha), tudo leva a que o sorriso tenha de se sobrepor à tosse e à febre!

Em dois dias e pouco, percorri praticamente todos os locais de interesse turístico com a minha irmã e o meu cunhado. Claro que a companhia foi o melhor (e revigorante, porque as saudades vão corroendo devagar...), mas devo assinalar algumas coisas especialmente marcantes: subi à Torre Eiffel e visitei a Sainte Chapelle e o Sacré Coeur. Tudo isto pela primeira vez e com uma pessoa que é tão especial para mim - não é lindo? :] Esteve imenso frio, mas valeu a pena ficar com o nariz vermelho e os pés magoados...

Agora há que prestar atenção às aulas e aos eventos culturais que vão tendo lugar à minha volta. E olhos no futuro...

(estou tão feliz por ter uma família e uns amigos tão queridos que nem sei como exprimir a minha gratidão.)


P.S. - Nunca imaginei ficar tão contente com línguas de gato, canja instantânea, maria choc e fruta portuguesa! :]

domingo, 14 de outubro de 2007

Na casinha do Rei Sol.

Hoje esteve um dia lindo, com céu azul e sol radioso - o dia perfeito para visitar Versailles e o Palácio do Rei-Sol. Aviso, desde já, que vou escrever muito e mostrar muitas fotografias, para poder partilhar a minha visita de hoje com as pessoas que não estão aqui comigo mas gostariam de estar (porque, como me disseram hoje duas pessoas muito importantes para mim, se partilharmos ficamos mais ricos...)

Quando cheguei ao palácio, fui atingida por uma ligeira desilusão: saltavam à vista os andaimes das obras de recuperação de um dos edifícios e a entrada era toda em pedra, sem um único bocadinho de relva. Agora, sinto-me estúpida por ter achado que devia haver ali um jardim... de facto, bastou-me contornar o palácio para perceber que espaços verdes, fontes e estátuas não faltavam ali. A fila para comprar os bilhetes era longa e cansativa, com duas voltas e meia ao longo do pátio... mas, graças à boa companhia que tive, acabei por nem dar conta do tempo que efectivamente passou!


A primeira coisa a dizer em relação a Versailles é: "oh meu Deus, que coisa gigantesca." Suponho que todos os visitantes levem uma ideia de uma grande dimensão e uma expectativa de megalomania... mas eu juro que aquilo ainda é maior do que eu imaginava. Maior em tamanho e em exageros (porque é que os reis gostam tanto de gastar dinheiro em coisas rococós?)

Decidimos começar a visita pelo jardim e aproveitar o sol de início de tarde, deixando o palácio para quando a temperatura começasse a descer. Logo no primeiro lago, estava esta estátua giríssima que não faço a mais pequena ideia do que retrata. Mas é gira, não é? ;)

A Mariana fez a melhor descrição possível do impacto que se tem ao olhar para os jardins de Versailles: normalmente, tu tens a tua casa, o teu jardim e a vista; aqui, o teu jardim é a vista! Literalmente... porque, de costas para o palácio, tudo o que o olhar alcança pertence ao jardim. É simplesmente impressionante.

A tia da Mariana teve a ideia fantástica de alugar um buggy para que pudéssemos ver mais do jardim, por isso conseguimos dar uma volta e ficar com uma perspectiva geral. Foi óptimo, confortável e divertido :] Mesmo assim, não vimos a maior parte dos jardins e fontes, por isso fiquei com vontade de lá voltar especificamente para os ver (até porque os jardins são públicos, por isso, ao contrário do que sucede com TUDO O RESTO em Versailles, não temos de pagar para ir lá...)

Ainda assim, parámos algumas vezes para ver o que estava para além das sebes. Deparámo-nos sempre com várias alusões mitológicas, jardins bem cuidados e estátuas lindíssimas, realçados pelo sol que brilhava (com demasiada intensidade para os meus olhinhos, até!) e pelo céu azul.


[templo do amor, no domínio de Maria Antonieta.]

[o Grand Canal, que é mesmo grande, onde há barcos para alugar e tudo!]

Terminada a visita ao jardim, fomos em direcção à entrada do Palácio. Infelizmente, a Ópera estava fechada para obras e a capela estava fechada para um concerto, por isso devo ter perdido duas das partes mais importantes... mas, ainda assim, consegui espreitar o órgão de tubos e o tecto da capela, que eram lindíssimos.

["a toutes les gloires de la france" - exterior do pálacio.]

Acho que, se me pedissem para descrever Versailles, as três palavras que iria utilizar mais vezes eram: "dourado", "grande" e "exagerado". :P Já vão ver, por algumas das fotos que aqui pus, que tenho razão!


[todos os tectos do palácio de Versailles estão absolutamente cobertos de talha dourada e pinturas... nem quero imaginar quanto dinheiro o Luís XIV gastou só com pintores! diga-se de passagem que, apesar de ser um local inicialmente pensado para a caça, esta "casinha" acabou por ser uma grande homenagem à arte!]


Sobre a tão famosa galeria dos espelhos, tenho de dizer mais algumas coisas. Sim, é gigante e dourado e exageradamente ostensivo. É uma coisa absolutamente fantástica de todos os pontos de vista. Mas... se alguém tirasse dali a multidão de turistas e me deixasse olhar à volta em silêncio, talvez eu tivesse sentido que de facto estava ali dentro e talvez conseguisse deixar-me envolver pela opulência da galeria. Não, não fui capaz de sentir o estremecimento que esperava: acotovelada por chineses, empurrada por franceses, atingida pela corrida de um garoto espanhol, incapaz de tirar uma fotografia sem que me pressionassem para continuar a andar, incapaz de captar uma imagem que não contivesse dezenas de cabeças desconhecidas a escurecer a imagem que devia ser impecavelmente luminosa... não consegui sentir mais do que raiva por ser turista e, apesar disso, ter raiva aos outros turistas. Começa a ser um sentimento frequente aqui em Paris.

[possivelmente, a única foto da galeria dos espelhos sem cabeças de turistas.]

[chegadas a este quarto mui pobrezinho, eu disse: "não era capaz de dormir aqui". e não era.]

[bem sei que todas as fotos dos tectos do palácio são basicamente o mesmo, mas quis pôr aqui esta porque achei curioso o facto de quatro pinturas, uma no centro de cada parede, serem a preto e branco...]

[já nos aposentos do delfim: um globo terrestre e celeste, enorme e muitíssimo bonito.]


[ainda nos aposentos do delfim: a biblioteca, que tinha uns tons de azul muito queridos e que me pareceu o quarto mais habitável do palácio.]


[quarto da filha mais velha, bastante mais engraçado que o douradão da rainha.]

[10º baú guarda-roupa da filhota do rei. coitadinha, devia ter muito poucas coisas... ihih]


Terminámos a nossa visita pelos aposentos de Maria Antonieta, o Petit Trianon, muito afastados do palácio. Chocam com este a vários níveis: desde logo, são muito mais pequenos, muito menos dourados, muito mais toleráveis para o meu gosto. A cama era bastante fofinha, até, com um motivo floral próximo das sacas do pão :]

Daquele edifício resguardado das confusões e formalismos do palácio, fiquei com uma sensação de liberdade e autonomia que me fez sorrir... nem quero imaginar quão estupidificante seria viver constantemente rodeada de talha dourada, vénias e regras de etiqueta, festas, bailes e narcisismo. Imagino que uma pessoa normal sentisse vontade de reclusão, sede de cultura e de coisas mais genuínas. Enfim, toda uma imagem bastante contrária à ideia que eu tinha da Rainha - por isso, agora tenho vontade de saber mais sobre ela, sobre a sua vida, sobre a Revolução Francesa e o seu impacto na família real.

[Aliás, estou mortificada com o meu total desconhecimento da história de França. É ridículo! E sinto muito essa falha quando ando a visitar monumentos históricos... Tenho de comprar a "História Francesa para Totós"!]